16.7.10

UM GIGANTE QUE AGONIZA



Nesta semana, foi divulgado que o Jornal do Brasil, um dos mais tradicionais diários brasileiros e que está às vésperas de completar 120 anos de existência (começou a circular em 1891), não será mais vendido nas bancas no início de setembro, restringindo-se à versão digital. Desta forma, o JB (símbolo de um jornalismo combativo e independente durante décadas, mas que se perdeu bastante nos últimos anos) se junta a diários menos tradicionais como Gazeta Esportiva e Tribuna da Imprensa, que também sucumbiram a suas respectivas crises financeiras, reduzindo-se à Internet.

Por mais que o jornalismo tradicional, o impresso, esteja em crise no mundo inteiro, é inaceitável que um diário do porte do JB esteja em um declínio tão acentuado. Talvez isso se deva à cada vez mais crescente dívida acumulada através dos anos, que nem mesmo o próprio nome salvou. Através de grande parte de seus 119 anos de existência, o Jornal do Brasil teve grandes momentos, dois deles durante o regime militar e em suas primeiras páginas: em 14 de dezembro de 1968, dia seguinte à promulgação do Ato Institucional nº 5 (marco inicial dos chamados anos de chumbo), a previsão do tempo, no canto superior esquerdo, anunciava assim: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos." No canto superior direito, uma manchete que dizia tudo: "Ontem foi o Dia dos Cegos."

O outro (foto acima) foi em 12 de setembro de 1973, dia seguinte ao golpe militar que derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende. Para driblar a censura, o jornal colocou um texto sem manchete nem fotografias, entremeadas por anúncios classificados (algo comum na época, como modo de mostrar aos leitores que determinadas notícias estavam sendo censuradas). Um expediente tão simples quanto genial, que marcou o jornalismo brasileiro.

Nos últimos anos, porém, o Jornal do Brasil vivia apenas do nome construído durante esse período. O surgimento e crescimento de concorrentes populares e bem mais baratos, que privilegiam a notícia dita de forma mais resumida ao invés de um texto mais elaborado, fizeram as vendas do tradicional diário despencarem. Uma tentativa de se adaptar aos novos tempos se deu em 2005, quando o tamanho das páginas diminuiu do standard (modelo tradicional) ao berlinense (cujo tamanho é um pouco maior que o do formato tabloide). Pelo visto, de nada adiantou: os exemplares sumiam gradativamente das bancas, até o anúncio de que o JB irá deixar de circular em papel.

Apesar de uma ou outra derrapada recente (como as manchetes claramente bajulatórias à política internacional do governo Lula, por exemplo), é sempre lamentável que um diário feche suas portas, não importa onde ou como. A imprensa, mal ou bem, é um canal de comunicação da nossa sociedade. Sem imprensa, não há democracia. Ela tem que estar ao alcance de nossas mãos, de qualquer forma.

Nenhum comentário: