22.9.09

MAIS UM CAPÍTULO DA SÉRIE "OS MICOS DO ITAMARATY"



No meio do ano, o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto do poder por querer mudar a Constituição do país, para que pudesse concorrer a um novo mandato presidencial, contrariando as leis locais. Na época, escrevi que mesmo medidas antipáticas poderiam ser necessárias para garantir a democracia, desde que ela fosse respeitada, para que não se repetisse o que ocorreu no Brasil em 1964, por exemplo.

Pois bem: o ex-presidente hondurenho é um notório aliado do bloco liderado pelo venezuelano Hugo Chavez, e que conta com o apoio de Lula. E este, através do governo brasileiro, anda abusando do direito de se intrometer em assuntos internos de outro país. Nesta semana, Zelaya se refugiou (o governo do Brasil não usa a palavra "refugiar", por considerar que Zelaya ainda é o presidente de Honduras) na embaixada brasileira em Tegucigalpa. O atual governo, pressionando os brasileiros, cortou água e luz da embaixada, cercando-a para que Zelaya seja entregue.

Independentemente de os lados da questão estarem certos ou errados, o fato é que o caso é mais um desastre na política interna brasileira desde que Lula assumiu a Presidência da República. Nem é preciso enumerar o número de derrapadas diplomáticas de origem ideológica que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, cometeu, fracassando redondamente em todas elas (a mais recente foi na eleição para a secretaria-geral da Unesco, em que, de olho nas relações com o mundo árabe, apoiou o polêmico egípcio Farouk Hosni, de tendências antissemitas, em detrimento de dois brasileiros que eram fortes candidatos ao cargo - a vencedora foi a búlgara Irina Bokova), assim como é desnecessário ressaltar o quanto o Brasil, embarcado num pretenso antiamericanismo, colocou-se na rabeira da ordem mundial, apoiando ditaduras (quase todas de esquerda, antiamericanas ou antissemitas) e condenando democracias.

Quase um quarto de século depois da volta de um regime democrático ao Brasil (fará 25 anos em 15 de março de 2010, com o fim do regime militar), esse mesmo regime está seriamente ameaçado. Pior: por muitas das vítimas da própria ditadura. Existe o sério risco de não haver a menor possibilidade de escapar desse trágico destino.

17.9.09

ENQUANTO ISSO, OS TROGLODITAS DE ESQUERDA...



Segue impressionante a capacidade que o presidente Lula tem de dizer as coisas mais infelizes nos momentos mais impróprios. Foi o que aconteceu, mais uma vez, ontem.

O presidente disse que, nas eleições de 2010, pela primeira vez, não haveria "trogloditas de direita" (sic) se candidatando à presidência da República - baseado no fato de grande parte dos pré-candidatos, até agora, serem majoritariamente filoesquerdistas (Dilma Rousseff, Marina Silva, José Serra, Ciro Gomes, Heloísa Helena etc.). Essa colossal bobagem presidencial é facilmente derrubada em dois argumentos claros.

O primeiro: há um bom tempo, não há candidatos claramente de direita com chances de chegar à presidência. Desde 1989, para ser mais claro, quando Fernando Collor (PRN) foi eleito. De lá pra cá, as eleições foram disputadas muito mais por candidatos de esquerda ou social-democratas: Fernando Henrique Cardoso, Serra e Geraldo Alckmin (todos do PSDB), o próprio Lula (PT), Ciro Gomes (PPS, em 1998 e 2002), Anthony Garotinho (PSB, em 2002)... Isso sem contar os candidatos de partidos esquerdistas de pouca ou nenhuma relevância, como PSOL, PSTU ou PCO, que só aparecem por causa do barulho que fazem durante as campanhas - sem dar resultado eleitoral algum, contudo.

O segundo, e mais importante: mui convenientemente, Lula fala dos tais "trogloditas de direita", esquecendo-se (ou não...) dos de esquerda. Ninguém pode negar: eles sabem fazer propaganda como poucos. Ainda por cima, prosseguem no seu intento de se perpetuar no poder, contando com a passividade da população. Não duvido nada de que isso aconteça - e aí, sim, vai ter gente morrendo de saudade dos tais "trogloditas de direita".

16.9.09

UM GIRO DE 360 GRAUS



Quando foi eleito presidente dos Estados Unidos, há cerca de dez meses, Barack Obama carregava as esperanças do mundo inteiro (que parecia ignorar o fato de ele ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, não super-herói do planeta) de que, enfim, as guerras se acabariam e a economia, enfim, voltaria a entrar nos eixos. Passados quase oito meses de sua posse, porém, o que se vê é apenas a confirmação de que o cargo de líder da maior potência da Terra é altamente imutável - a série de obrigações dada a um chefe de Estado e Governo não muda de uma hora para outra.

A demora para se recuperar da maior crise econômica em oito décadas, maior que a média dos outros países (até o Brasil, aos poucos, começa a se recuperar da "marolinha" tsunâmica), acaba sendo o de menos quando constatamos o atoleiro em que as tropas norte-americanas se meteram no Iraque e no Afeganistão. Neste último, então, as coisas ficaram bem complicadas: o recrescimento da milícia Talibã e as tumultuadas eleições presidenciais no país (em que o presidente Hamid Karzai enfrenta acusações de fraude para se reeleger) são grandes problemas que Obama e sua equipe têm que enfrentar. Porém, sempre pode piorar: é previsto o envio de mais tropas ao país, o que causa uma grande polêmica entre os próprios democratas, por contrariar uma promessa de campanha do atual presidente. Todo esse estado de coisas provoca uma enorme queda de popularidade de Obama, maior até mesmo que a sofrida por George W. Bush nos primeiros meses de seus dois mandatos, em 2001 e 2005.

Enfim, conclui-se algo que já se sabia há muito tempo, mas não custa nada lembrar: não existem salvadores da pátria. Mas a Humanidade parece fazer sempre questão de se esquecer deste pequeno detalhe, sempre se decepcionando com quem sempre se espera uma atitude rápida e redentora.

10.9.09

E AGORA, HEIN?


Há alguns dias, o terror vem dominando a cidade de Salvador, com ataques de grupos criminosos - em represália à transferência de um dos chefões do crime soteropolitano para um presídio no Mato Grosso do Sul. De todo modo, não deixa de ser significativo para um estado como a Bahia, que vê seus índices de violência aumentarem a cada mês, que de nada adiantou se alinhar com o governo federal no tocante à segurança de seus habitantes.

Isso tudo três anos depois de ataques criminosos pelo estado de São Paulo - época da transição do governo de Geraldo Alckmin (PSDB), que renunciava para concorrer à presidência da República, para o vice Cláudio Lembo (PFL, hoje DEM). Na época, muitos atribuíam à "política tucana para a segurança" a onda de violência; outros, a uma "coligação PT-PCC" para que a campanha tucana fosse prejudicada. Nenhuma das duas ilações adiantou muito: o tucano José Serra foi eleito governador no primeiro turno e Lula foi reeleito presidente. Enfim, houve em São Paulo, naquele 2006, uma balbúrdia que foi maléfica à população paulista e evidenciou nossa impotência frente à bandidagem.

Só quero ver o que vão dizer agora. Pode ser que seja resultado de má política de segurança do governador baiano (o petista Jaques Wagner) ou apenas "uma fase ruim". Mas o fato é que Wagner - também eleito governador no primeiro turno - tem um pepinaço nas mãos. E isso poucos meses depois de enfrentar a maior epidemia de dengue do país no ano. O pior, para os baianos, é constatarem que estão entre o petismo e o carlismo, herança política do falecido coronel político Antônio Carlos Magalhães. Assim, fica difícil achar uma saída.

6.9.09

ALFREEEEEEEEEDOOOOO!!!!!!!



Como estamos todos carecas de saber, há cinquenta anos Cuba vive uma ditadura. Como ocorre em toda e qualquer ditadura, há cerceamento das liberdades, partido e pensamento únicos, brigas externas e falta de suprimentos. Entre eles, está o papel higiênico, cuja ausência anda crônica na ilha caribenha.

Ah, sim: um único jornal circula em Cuba, o Granma - órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Ninguém mais anda lendo o que o ex-ditador Fidel Castro anda dizendo por esses dias, mesmo porque há pouquíssimos interessados nisso hoje. Mas, estranhamente, as vendas de edições atuais, recentes e antigas do Granma andam aumentando entre os cubanos. Leitores vorazes de última hora? Colecionadores excêntricos? Nada disso! É só voltar ao assunto que fechou o primeiro parágrafo.

Além do Granma, anda fazendo sucesso entre os cubanos o mais novo lançamento literário do ex-ditador - afinal, suas folhas são macias e não provocam muita dor durante o seu uso. Enfim, acharam uma utilidade plausível para tão doces palavras escritas em prol de "um novo mundo possível" - seja lá o que isso for.

3.9.09

BRASIL, O PAÍS DO RETROCESSO


Nesta semana, o Brasil se afastou ainda mais da democracia e da modernidade ao impor que, nas eleições do ano que vem, portais, sites noticiosos e blogs (mesmo os amadores!) sejam proibidos de emitir opiniões acerca de quaisquer candidatos, não importando se favoráveis ou não. É um verdadeiro tiro no pé, visto que os blogueiros insatisfeitos (a grande maioria) irão burlar essa regra, de uma forma ou de outra. Ou simplesmente desobedecê-la, como propôs o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ).

Agora, a minha opinião: a nossa Lei Eleitoral é uma das mais ridículas do planeta. Por causa dela, os jornais, rádios e emissoras de TV não podem emitir opiniões sobre os candidatos nem têm direito a declarar apoio a um deles, como ocorre em países democráticos. Isso é inaceitável em algo que se pretenda ser uma democracia, como é o Brasil. Talvez isso se deva às eleições presidenciais de 1989, mas mesmo assim não justifica. Com esse tipo de proibição, fica parecendo que os brasileiros não temos capacidade de pensar por nós mesmos e temos que recorrer a isso para que nossas eleições sejam vistas como "isentas", sem que haja a possibilidade de maior debate sobre os candidatos.

Porém, não sou radical a ponto de boicotar a decisão, apesar de discordar frontalmente dela. Prefiro a via mais difícil: uma união dos que prezam a democracia e o estado de direito para que essa ridícula decisão seja revertida. Assim, a vitória será bem mais saborosa.

30.8.09

MANDANDO A CORREÇÃO POLÍTICA PRO ESPAÇO


  • Filme: Se Beber, Não Case! (The Hangover, Estados Unidos, 2009)
  • Direção: Todd Phillips
  • Elenco: Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Heather Graham, Sasha Barrese, Jeffrey Tambor, Ken Jeong, Rachael Harris, Mike Tyson

A comédia de Todd Phillips (o mesmo diretor da série Anos Incríveis, sucesso nos anos 90) é um grande sucesso, mesmo sem contar com atores muito conhecidos no seu elenco. Custou cerca de 35 milhões de dólares (uma ninharia), e faturou cerca de dez vezes mais. Não por acaso: o filme ajuda a preencher uma lacuna de que muitos se ressentiam, a de filmes de humor adulto que fazem rir sem apelar para a pura escatologia, além de mandar o pensamento politicamente correto para o espaço.

Um grupo de quatro amigos sai da Califórnia para passar uma noite em Las Vegas, visando a comemoração do casamento de um deles. Só que a despedida de solteiro foi, digamos, mais "animada" que o normal: após acordarem de uma ressaca braba causada por excesso de bebida e uso de algumas substâncias ilícitas, eles constatam que a sua vida revirou completamente. Não bastasse um deles estar desaparecido (justamente o noivo, na véspera do próprio casamento!), eles se envolvem numa trama que envolve um bebê, um dente extraído sem anestesia, um outro casamento feito às pressas e de porre, a máfia chinesa e o tigre de estimação do ex-pugilista Mike Tyson (!!!).

O andamento do filme leva o espectador a montar o quebra-cabeça que envolve os viajantes, à medida que o roteiro avança. A produção é bem dinâmica, fazendo acreditar que os fatos relatados, apesar de absurdos, poderiam perfeitamente acontecer de verdade. O sucesso foi tamanho que uma continuação já está a caminho. Esperemos que seja tão bom (e engraçado) quanto o original.

27.8.09

QUE SIRVA DE LIÇÃO



Uma tremenda confusão tumultuou o já caótico trânsito de São Paulo hoje. O Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) foi acionado para deter uma suspeita de bomba sobre uma ponte na capital paulista. Era uma suposta granada, que estava sem o pino e poderia explodir a qualquer momento. Após muita tensão, constatou-se que era... um frasco vazio de perfume, em formato de granada. E olha que o Brasil ainda não sofreu nenhum atentado terrorista de grandes proporções; senão, a paranoia seria ainda maior.

Lição do dia: lugar de lixo é na lata de lixo. Não jogue nada na rua, ou as consequências podem ser imprevisíveis.

AH, SE OUTRO ESTIVESSE NO PODER!



Como todos sabemos, o Brasil acaba de assumir a liderança no número absoluto de mortes pela gripe suína (557 até ontem, ultrapassando os Estados Unidos, com 522). Ainda que o número seja proporcionalmente menor que em países como a Argentina, por exemplo, não deixa de ser alarmante a consequência da falta de informação sobre o assunto. Como sempre ocorre em fatos como esse, o Ministério da Saúde parece perdido em informar a população sobre os riscos desse tipo de epidemia; algo semelhante ocorreu em 2002, com a dengue.

Falando nisso, fico imaginando como seria a gritaria do "progressismo" se o presidente da República fosse, por exemplo, Geraldo Alckmin. Em 2002, na época da epidemia nacional de dengue, o presidente era Fernando Henrique Cardoso e seu ministro da Saúde, José Serra (que seria o candidato do governo à Presidência naquele mesmo ano). A então oposição meteu o pau no governo, acusando-o de omissão (algo parecido aconteceria seis anos depois, como podem ler aqui). Lula foi eleito e reeleito, e não se tocou mais no assunto - tanto que a gripe suína chegou com força neste 2009 e o governo não está sendo tão atingido como poderia. Talvez seja por causa da passividade da oposição atual...

De todo modo, imaginemos o seguinte: se Geraldo Alckmin tivesse sido eleito em 2006 e a H1N1 chegasse durante seu mandato, teríamos um chororô nunca antes visto neste país. "Viram só? A direita (sic) não sabe cuidar do povo!" "Bem feito! Se o Lula tivesse sido reeleito, nada disso teria acontecido!" Daí, Alckmin seria chamado de presigripe pra baixo (assim como Serra foi chamado de presidengue em 2002) e teríamos protestos "Fora Alckmin" pipocando Brasil afora.

Mas como Lula é o presidente e o ministro da Saúde se chama José Gomes Temporão, nada acontece. Marasmo total. Repararam a diferença de tratamento entre os que estão dentro e os que estão fora, assim como ocorre quando o contrário acontece? Pois é.